Dia Internacional das Pessoas com Deficiência 3 de dezembro

QUANTA HORAS TE DIA  AGORA?

Escrito por Janine Martins
Ilustrado por Rita Couto

 

Quando pensamos na possibilidade de um novo confinamento, o nosso coração gela…
Quando somos confrontados com uma quarentena de 15 dias, entramos em pânico…
Tudo isto são novos e grandes desafios para as Famílias de crianças com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Dá a sensação de que os dias aumentaram e a casa diminuiu!

MAS, e se usarmos as atividades do dia-a-dia como “Guia” para organizar as novas rotinas de uma criança com PEA, que de repente se vê fechada em casa?
Todos nós sabemos como as rotinas e a previsibilidade dos dias são cruciais para o bem- estar de uma criança com PEA. Aquelas tarefas que nos deixam loucos, porque temos de fazer todos os dias e são sempre iguais (essas mesmas!), são uma bênção para uma pessoa com PEA. Falo das tarefas domésticas (arrumar, limpar, cozinhar, etc.), assim como das Atividades de Vida Diária (tomar banho, vestir, lavar dentes, etc.). Fazem parte do nosso quotidiano e são um excelente recurso de intervenção:

• Têm horas certas para serem feitas: dando estrutura ao dia que se avizinha;
• Seguem a mesma sequência: tornam-se previsíveis ao fim de algum tempo;
• São atividades concretas: facilmente transformadas em listas de tarefas visuais.

Por serem rotineiras e previsíveis, tornam-se apelativas aos olhos de uma pessoa com PEA –
pois diminuem os seus níveis de ansiedade…

Ao diminuir a ansiedade, aumenta a atenção dedicada à tarefa, fazendo-a cada vez melhor…

Isto faz com que aumente a autoestima, que consequentemente aumenta a predisposição e disponibilidade para a realização da atividade…
Aos poucos, cresce a vontade de fazer mais e melhor e cresce também a autonomia nas atividades diárias!

PORTANTO, não se trata, apenas de “ocupar o dia”, mas sim de criar oportunidades para que se desenvolvam: a nível motor, a nível cognitivo e a nível
emocional.
Não é exatamente isso que queremos?

 

Antes de dar alguma ajuda, tente deixá-lo fazer sozinho: experimente!

Se for mesmo necessário ajudar, pode recorrer aos seguintes “níveis de apoio” – começando por usar suportes visuais para melhorar a organização e sequenciação da tarefa, acrescentando alguma indicação verbal e/ou pista táctil se for mesmo necessário. Nas situações em que a atividade seja mesmo muito exigente, pode dar uma ajuda mais intensiva, moldando os movimentos que são necessários fazer através de ajuda física.
• Suportes visuais: na verdade, os suportes visuais ajudam sempre não é? É sempre mais fácil ver numa imagem aquilo que nos estão a pedir – ajuda a perceber melhor a mensagem e a não esquecer! Porque não colocar os suportes visuais num sítio bem visível? Assim conseguem consultá-los quando se sentirem ansiosos com a atividade, quando se esquecerem de alguma coisa, ou melhor ainda: para verem quanto falta para acabar… e como estão a cumprir tão bem aquilo que lhe pediram para fazer!
• Ajuda verbal: usar frases curtas, simples e concretas (ex.: pega no lençol; põe o brinquedo na cesta; passa o pano na mesa; varre o lixo para o apanhador, etc.)
• Pista táctil: os pais podem, por exemplo, tocar na ponta do lençol em que tem de pegar e depois tocar no sítio para onde o deve levar; podem tocar no brinquedo que tem de arrumar e depois tocar no sítio para onde o deve levar; podem dar o pano do pó e tocar no sítio onde tem de limpar; podem dar a vassoura e tocar no sítio onde tem de varrer e, alternadamente, tocar no sítio para onde deve varrer o lixo…
• Ajuda física: os pais podem, por exemplo, pegar na mão e ajudar a puxar os lençóis da cama; pegar nos brinquedos que tem de arrumar e colocar na mão – levando até ao sítio onde têm de ficar; colocar o pano do pó na mão e orientar os movimentos a executar; dar a vassoura para as mãos e demonstrar os movimentos que tem de fazer e para onde, etc.

Quando falamos em PEA, abarcamos um conjunto de “perfis de funcionalidade” muito amplo e variado. Isso significa que cada caso é um caso, podendo haver mais ou menos dificuldade na implementação e execução das atividades que foram aqui sugeridas. No entanto, sendo todas elas atividades diárias e que visam trabalhar e promover a autonomia, o facto de se insistir neste tipo de atividades não será com toda a certeza uma “perda de tempo”.
Com mais ou menos ajuda, com mais ou menos apoio, levando mais ou menos tempo, servindo apenas para organizar o dia-a-dia ou trabalhando de forma mais intensiva dificuldades de autonomia… todos retirarão alguma vantagem deste tipo de organização diária (com os devidos ajustes individuais que cada um terá de fazer).
Despeço-me com um forte abraço a todas as Famílias!